"Dogmas" saloios e boa vivência

Eu sou natural de uma aldeia no centro do país e sempre vivi rodeado por hábitos, maneirismos, etc, sociais que eu nunca percebi muito bem e com os quais muito raramente me identifiquei. São regras de etiqueta à lá aldeia, onde as coisas mais insignificantes e parvas podem ser consideradas de extrema importância e serem motivo para anos de zangas.

Hoje, fui obrigado a conter-me para evitar ir contra um destes "dogmas" sociais saloios. Se o fizesse, teria deixado muita gente desconfortável; e esse foi o grande motivo para ter ficado calado.

Uma pessoa natural daqui da localidade vai casar-se, mais semana menos semana, e num ambiente campónio isto tem uma importância enorme. Durante meses a vida das pessoas da família girou em torno deste evento, quase à semelhança do carnaval no Brasil. E houve muito jogo político nisto, acreditem.

Como o casamento está quase aí, anda tudo num frenesim ainda maior, com o ultimar dos preparativos. Mas há uma coisa que toda a gente parece querer ignorar: o facto da noiva estar grávida - parece-me que está de pelo menos 4 meses, a julgar pelo tamanho da barriga. Da minha parte, felicidades para eles e para a criança, mas a noiva casar-se grávida, aqui, é algo que não pode mesmo acontecer. E se acontece, faz-se de conta que não.

Se, como gostava de ter feito, lhes desse os parabéns, perguntasse o sexo da criança ou se já tinha padrinho, ia criar uma situação extremamente embaraçosa e, pior que tudo, seria visto como persona non grata. É que, na mente das pessoas, ela não está grávida, está apenas gorda. E eu, claro, não vejo onde está o problema. Se está grávida, eh pá, felicidades. A sério. Mesmo com as muitas noites mal dormidas, aposto que deve ser excelente ser pai. Mas as pessoas aqui não vêm isso assim, quando acontece antes do casamento.

Não é um dos objectivos do casamento ter filhos? Se se tem antes, houve antecipação - tomar atalhos não é necessariamente mau. E ter filhos e constituir família com alguém, sem se estar casado, também não tem mal nenhum. Muito provavelmente, esta segunda situação é a que se vai passar comigo.

Eu fiquei feliz por eles. Tive pena de não lhes poder dar os parabéns pela criança, mas faço-o já daqui a uns 3 ou 4 meses.

publicado por brunomiguel às 23:30 | link do post | comentar