Eu, a religião e a espiritualidade

Eu vejo a religião como uma forma corrompida de poder, política e controlo. Por isso não gosto dela e defendo o seu fim. Mas um fim de forma gradual, porque milhões de pessoas estão subjugadas por ela e a desabituação rápida seria trágica.

A mesma opinião não tenho da crença religiosa, pelo menos enquanto algo corrompido. Apesar de muitas pessoas acreditarem que a religião e a crença são o mesmo, elas não estão directamente relacionadas. A crença religiosa pressupõe a existência de uma ou mais forças superiores, enquanto a religião é uma forma de explorar isso para proveito de alguns sedentos de poder.

Este acreditar numa ou mais forças superiores deve-se a quê? Insegurança? Medo? Explicação fácil para a questões que surgem ao longo da vida? Paz de espírito? Eu não faço ideia porque a lógica e o conhecimento que a humanidade adquiriu até aos dias de hoje não me permitem vislumbrar razões válidas para a crença religiosa. Já não somos crianças para acreditar em algo só porque nos dizem que isso é verdade (o mesmo se aplica ao que digo e escrevo.).

No que toca ao cristianismo, eu não ponho de parte a existência de um homem ou mulher que, a dada altura da história da humanidade, tomou as rédeas do seu povo e o ajudou a superar uma situação difícil. Mas daí a voar em nuvens... Provavelmente esse povo terá ficado tão satisfeito e grato que começou a contar a sua história de superação de um momento difícil, mas de forma exacerbada; talvez até tenham atribuído poderes mágicos a esse líder – algo habitual naquela altura e até ainda hoje. Quem ouviu deve ter ficado fascinado, e como que conta um conto acrescenta um ponto... Depois, atraídas pelo cheiro a oportunidade de conseguir poder, vieram as “hienas”. E assim poderá ter nascido o cristianismo como religião.

Esta explicação é muito simples, bem sei, mas a ideia é mesmo essa. E confesso, não estou com grande paciência para estar a ler alguns livros históricos com centenas de páginas só para poder explanar isto melhor. Deixo essa investigação ao vosso cargo, se estiverem interessados.

Este meu descrédito pela religião já vem do final da minha infância. Quando ia à catequese todos os domingos, ficava confuso ao ouvir a catequista afirmar algo que estava na bíblia e era contrário ao que tinha dito à uns tempos atrás e que também estava na bíblia. Isso foi o mote para eu e o meu irmão termos feito, um dia, uma lista de contradições da bíblia. Apesar de sermos miúdos com mais vontade de jogar futebol do que procurar contradições num livro com muitas páginas, ainda conseguimos encontrar bastantes. Hoje, já não me recordo de nenhuma – já lá vai mais de uma década desde que essa lista foi feita e várias anos sem exposição directa à religião.

Entretanto, no décimo ano de escolaridade, tive um professor de filosofia que era muito pragmático e nos incentivava a questionar o que ele dizia e o que qualquer pessoa afirmava, por forma a desenvolver-mos pensamento próprio e crítico. Para além de pragmático, ele não tinha qualquer crença religiosa ou espiritual, e de vez em quando confrontava-nos com contradições do cristianismo e “verdades” da igreja. Escusado será dizer que foi dos professores que mais curti e me marcou, pois foi graças a ele que consegui um desenvolvimento sustentado e rápido do meu pragmatismo e sentido crítico.

Pragmático e sem crença religiosa ou espiritual, num meio rural pequeno, enquanto adolescente, é fórmula certa para sofrer alguns atritos. Por isso foi perfeitamente natural ser bastante criticado e por vezes gozado, quer por miúdos e graúdos. Talvez seja esse o respeito religiosos que os cristãos, com tanto apanágio, cospem para o ar, lá do alto do seu pedestal.

Continuando... Isso nunca me causou grande incómodo porque, ao contrário deles, neste ponto podia dar-me ao luxo de poder dizer que tinha os pés assentes na terra e a mente sã. E isso enchia-me de orgulho; e ainda hoje enche, não por me achar melhor que os outros, mas porque não estou eludido, nem vivo cheio de medo da vingança de uma força superior só por ter cometido um erro.

publicado por brunomiguel às 16:39 | link do post | comentar