Sábado, 08.08.09

"Cântico Negro"

"vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que repetis:"vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados,ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre,nas vossas veias, sangue velho de avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longo ea Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide!tendes estradas,
Tendes jardins,tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras,e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca pricipio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ningém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí.

José Régio

via Carla Graça no Friendfeed

publicado por brunomiguel às 20:12 | link do post | comentar
Domingo, 14.06.09

"i think it was a friday"

"I walked about 4 miles home while nursing a bottle of vodka.

I've seen these houses, these businesses, every day for years
but now they glow with that pre-dawn illuminance offered by
speeding drunks and cops and kids on pcp screaming down alleys
when I'm the only one who can hear.

I don't remember it raining during the night
but the puddles huddling against the curbs seem to remind me of something.
Something lost and stagnant like the abandoned bastard water that exists
without the rain to blame it on.

I left the party and the friends when I realized that I hated everybody there
and I took the rest of the hard liquor with me.
It doesn't cure the loneliness but it makes the cars sound pretty on the freeway,
that undertow of loud and dizzying hums matching red and white lights
and the occasional blue sirens that ease beneath the overpass I almost fell from.

I watched the headlight streamers stare me down until they disappeared
beneath the concrete balcony on which I swayed.  
Like swimming in murky lakes with the smell of burning rubber and gasoline
I thought fondly of falling, sinking,
floating suspended in whatever euphoric misery in which I was dreaming.

Gravity decided to pull me home instead."

i think it was a friday - synapticattack

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publicado por brunomiguel às 00:00 | link do post | comentar
Terça-feira, 09.06.09

O Camões é que a sabia

Mudam-se os tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

publicado por brunomiguel às 11:16 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Sexta-feira, 29.05.09

"Glory in the flower"

What though the radiance which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

Wordsworth, William

(ouvi isto, hoje, na série Criminal Minds)

publicado por brunomiguel às 02:13 | link do post | comentar
Domingo, 03.05.09

"Nem Sempre Sou Igual no que Digo e Escrevo "

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Mudo, mas não mudo muito.

A cor das flores não é a mesma ao sol

De que quando uma nuvem passa

Ou quando entra a noite

E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:

Se estava virado para a direita,

Voltei-me agora para a esquerda,

Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -

O mesmo sempre, graças ao céu e à terra

E aos meus olhos e ouvidos atentos

E à minha clara simplicidade de alma ...

 

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIX"

publicado por brunomiguel às 19:49 | link do post | comentar

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