Tecido pulmonar: é só juntar células estaminais e ar
A minha primeira reacção ao ler o artigo da NewScientist entitulado "Breath of fresh air transforms stem cells" foi: isto é tipo o Frankenstein. Mas não é. Bem, não parece; faltam os parafusos e os relâmpagos. Ainda assim, conseguir criar tecido pulmonar a partir de células estaminais deixadas ao ar livre é obra.
Esta descoberta foi feita por Lindsey Van Haute, da Free University of Brussels, Bélgica, e a sua equipa de investigadores.
Para realizar esta experiência, os cientistas colocaram as células estaminais numa membrana porosa. Depois, colocaram nutrientes por baixo das células para as alimentar e um líquido por cima para estimular o crescimento, de onde de seguida retiraram dois químicos para dar início à diferenciação das mesmas.
Quatro dias depois, removeram os químicos que facilitavam o crescimento, deixando-as a apanhar ar normalmente e mantendo os nutrientes. A intenção era reproduzir mais ou menos fielmente o ambiente de crescimento que teriam na traqueia.
Após 24 horas de exposição ao ar livre, as células estaminais transformaram-se em tipos específicos de células encontradas nos pulmões.
Com o resultado das suas experiências, esta equipa de investigadores liderada Lindsey Van Haute mostrou que os factores físicos influenciam a transformação das células em tecido.
Com efeito, este género de trabalhos são a ponta do iceberg; só agora se começam a compreender as finas interacções entre o meio e a célula.
Por exemplo, gémeos verdadeiros têm impressões digitais diferentes, embora tenham por definição a mesma informação genética.
As impressões digitais são portanto uma característica multifactorial (uma componente genética e ambiental) e postula-se que uma das determinantes é a interacção física do feto com as estruturas de suporte in utero que determina o seu padrão único.
Numa linguagem simples, a força e posição com que o feto desloca os seus dedos sobre a parede uterina (através de uma interface pelo saco amniótico bem entendido) acabam por determinar os diferentes padrões de migração celular que criam a impressão digital.
Quem sabe se este tema não motivará um post lá no meu tasco um dia destes!
Abraço,